terça-feira, 25 de julho de 2017

A minha desgraça deste Verão

Eu, que nem costumo gostar de jogos no telemóvel, confesso: estou viciada nisto. Desde os tempos do "Candy Crush", nos idos de 2013, que não passava por tal fixação por um jogo. Ainda por cima mete gatos. Aaaaaai, vida!



Questões de agenda

Ontem à noite vi na RTP3 um documentário sobre cesarianas. Falou-se do procedimento, dos prós e dos contras, dos avanços que a técnica sofreu ao longo dos tempos, mas também da moda em que se tornou. A comunidade médica alemã, por exemplo, mostrava-se preocupada com o aumento drástico do número de cesarianas realizadas sem que houvesse verdadeira necessidade disso. 

O documentário é bastante interessante, porém o que me leva a escrever esta quixotada tem que ver com dois casos apresentados, representativos de tantos outros e por isso mesmo um pouco assustadores. 

Na China, uma mulher de 22 anos começou a pesquisar na internet mal soube que estava grávida. Pelo que leu e pelo que as amigas lhe diziam, o parto natural era muito doloroso e ela não estava para isso. Escolheu marcar e pagar uma cesariana para a qual toda a família contribuiu. Ora, por um pagamento extra, podia escolher a data da mesma. Lá foi ela para a internet procurar dias entendidos como sendo "de sorte" para o bebé nascer. Optou pelo dia dos namorados na China, 7 de Julho. A sogra, ao lado dela enquanto falava para a reportagem, disse que as mulheres agora eram "muito mimadas", que faziam tudo para escapar à dor que sempre tinha sido inevitável nos nascimentos. Eu fiquei a perguntar-me se a sorte que o nascimento naquele dia poderia trazer ao miúdo (caso se acredite nessas coisas) não ficou anulada pelo facto de o nascimento ter acontecido naquela data apenas porque a mãe assim escolheu e pagou para isso. Fiquei a pensar que já nem se tem direito a nascer quanto o corpo assim o pede. Agora vai-se ao Google e escolhe-se o dia em que a cegonha faz a entrega. Enfim...

A outra situação passa-se no Brasil, mas pelo que percebi acontece em vários outros países. Exitem clínicas sem equipas médicas próprias que alugam os blocos operatórios para os médicos fazerem lá os partos das suas pacientes. Ou seja: um obstetra segue uma paciente no seu consultório, mas não trabalha num hospital. Existe a hipótese de alugar um bloco operatório para fazer cesarianas às suas pacientes. Nesses lugares não se fazem partos normais, apenas cesarianas. O documentário explica porquê. É que um parto normal pode acontecer a qualquer momento e prolongar-se por horas. Porém, o médico tem mais que fazer e não pode parar o resto da sua vida profissional apenas para fazer o parto de uma única parturiente. Além de que, se se tratasse de um parto normal, ele poderia ocorrer num momento em que o médico nem pudesse deslocar-se à clínica. Por isso, para rentabilizar o tempo do médico, programam-se as cesarianas para a noite, para quando os obstetras já fecharam os seus consultórios e podem finalmente ir fazer nascer uns bebés. Pior: fazem-no duas semanas antes daquela que seria a data provável do nascimento, quando, segundo a reportagem, ainda faltam alguns dias para os pulmões do bebé estarem completamente  prontos para o nascimento. Não sei que consequências isso pode trazer, mas não me pareceu grande prática. Além de que tudo aquilo era impessoal, na medida em que a parturiente tem de esperar horas até que o médico termine as suas consultas, chegue à clínica com a sua equipa e tenha, então, a disponibilidade para trazer o bebé ao mundo. Mais: ainda existe a possibilidade de ter um fotógrafo a filmar a cesariana. Por um filme de dez minutos e setenta fotografias pagam mais qualquer coisa que não é assim tão pouco. A reportagem dizia que as cesarianas também estão a ser boas para os fotógrafos. Nem consigo comentar isto. 

Eu acho e já o disse aqui várias vezes que vivemos tempos terríveis. Temos acesso a tantas coisas que estamos a desumanizar-nos. O nascimento sempre foi aquele momento natural em que o corpo dava o seu sinal e começava um processo incrível que culminava com uma nova vida neste mundo. Não acho que, existindo anestesias, as mulheres tenham de sofrer tanto como no passado. Se há epidurais que facilitem a coisa, usem-nas. O que me parece de doidos é usar as cesarianas como forma de escolher dias de sorte para os nascimentos dos filhos, pagar para ter o bebé quando dá jeito ao médico, mesmo que umas semanas antes do que seria suposto. Pensei, enquanto via a reportagem, que o mundo é realmente muito triste quando um bebé já nem pode nascer quando assim tem de ser, quando a sua data de nascimento foi previamente escolhida por outros, quando até nasce antes da data prevista por questões de agenda. Parece-me tudo muito estranho, muito pouco natural relativamente a uma coisa que sempre foi tão natural.  Pensei até que os animais chegam a ter mais sorte do que muitos bebés: pelo menos ainda nascem quando assim tem de ser, sem pesquisas prévias no Google e sem fotógrafos profissionais a vender vídeos e fotografias no bloco operatório. 

Eu nasci de cesariana porque achei por bem enrolar-me toda no cordão. A minha mãe conta que lhe rebentaram as águas e que tudo começou naturalmente (ela nem sabia se ia ter uma menina ou um menino). Já no hospital perceberam que eu estava em risco e avançaram para a cirurgia. Na altura ainda a faziam com anestesia geral, portanto a minha mãe nem deu por nada. 

Neste caso, a cesariana salvou-me a vida e eu sempre a entendi assim: como um procedimento utilizado quando o nascimento não pode acontecer pela via normal. Sempre entendi que primeiro se tentasse o parto normal e só depois a cesariana. Ou que, havendo já razões médicas para crer que um parto normal não correria bem, se partisse logo para a cesariana. Nunca vi a cesariana como uma comodidade de agenda ou como uma maneira de um filho nascer num dia considerado de sorte em vez de estar sujeito ao aleatório da coisa e nascer quando tem de ser e pronto. 

A nossa humanidade, capaz de grandes invenções, está a desumanizar-nos e a conseguir tornar pouco natural aquilo que de mais natural existe nas nossas vidas: o nascimento. Vivemos tempos inacreditavelmente paradoxais: sabemos tanto sobre tantas coisas e mesmo assim optamos por deixar de lado o que é mais natural e fisiológico para nos rendermos ao que dá jeito. Camões é que sempre o disse bem: "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades" e até muda a própria mudança. Nem sempre para melhor, diria eu. 

A Menina Quer Isto XCVI


Sinto uma certa curiosidade relativamente a este livro. Pelo que percebi consiste numa série de textos que abordam a ideia de "sonho americano", tendo sempre em vista um livro da literatura norte-americana. Esta navegação à vista feita pela autora não se resumiu, contudo, às leituras que poderia fazer no recato da sua casa. Ela é feita, também, da própria viagem de um ano que Isabel Lucas realizou pelos vários estados dos E.U.A., criando assim uma mistura entre literatura, paisagem e política, à qual tomou o pulso in loco e numa altura em que os americanos eram chamados a tomar uma decisão (da qual já se devem ter arrependido, diga-se). 

Por tudo isto, sim, sinto mesmo uma curiosidade que cresce quanto mais penso no assunto. Ficaria bem na minha estante dedicada à literatura de viagens. 

E a vocês, o que vos parece? O livro, claro, e não se fica bem na minha estante que isso é garantido!

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Problemas de Física

Eu hoje abri um saco de areia de 16 quilos.


Despejei alguma para uma das caixas que já estava a precisar e coloquei o resto em baldes para ir usando. Mas o saco manteve-se estranhamente pesado. Pensei que as leis da Física tinham sofrido um atentado qualquer. Porém, depois percebi que o saco só tinha perdido dez quilos. Os outros seis ainda estavam lá dentro...


...só tinham mesmo mudado de forma e de matéria.

sábado, 22 de julho de 2017

A Menina Quer Isto XCV


A menina quer isto. Nem tem muito mais a dizer sobre o assunto. Talvez só notar que ainda falta muito para o Natal, mas que me tenho portado tão beeeeeeem...

(A Quetzal ainda será o meu fim!)

Grumpy

Saímos para comprar areia. Voltámos com 32 quilos de areia e com isto:


O Grumpy tem proporcionado por aqui grandes sessões de acrobacias. Atrevo-me a dizer que Lady Gatica está embeiçada por ele uma vez que o rouba de qualquer sítio onde o deixemos. E se não o vê, resmunga, que foi só o que fez enquanto almoçámos. Chegou a empinar-se para ver se o tínhamos em cima da mesa e tudo. 

Grumpy, o gato que quebra corações!

Nota: A Zu, loja de animais em frente ao Continente do Colombo, é uma perdição. É pena os brinquedos serem tão caros. Se não fosse esse importante pormenor, trazia a loja toda. Curiosamente, a areia da Always Cat Litter é mais barata por lá. 

quinta-feira, 20 de julho de 2017

A família completa vinte anos depois

Teria eu uns doze anos quando a minha irmã me ofereceu este livro:


Se pensar nas leituras da minha infância/adolescência, os diários deste hipocondríaco e azarado jovem inglês estarão como aquelas de que me recordarei imediatamente. O humor, a ironia, o sarcasmo, mas também outros pormenores que ali pelo meio nos mostravam como era a vida inglesa pela mão da senhora Thatcher tornavam estes diários absolutamente fenomenais. Ri-me muito com o pobre Adrian Mole e ainda hoje me lembro de algumas das suas frases. Melhor: uso-as no meu dia-a-dia.

Depois deste, a minha irmã ofereceu-me os outros que foram saindo. Mais tarde comprei eu aquele que julguei ser o último da colecção, Adrian Mole na idade do cappuccino. O protagonista já era adulto, embora continuasse hipocondríaco e com pouca sorte. Segui com o mesmo interesse as personagens a que já me habituara e dei por terminadas as minhas aventuras com Adrian Mole.

Mas depois, anos mais tarde, soube que saíra mais um livro, publicado novamente pela Difel. Não o comprei logo e pouco tempo depois a editora fechou e o livro desapareceu das livrarias. Estava impossibilitada de saber como terminariam, enfim, as desventuras deste anti-herói inglês que falha redondamente tudo aquilo a que se propõe. Procurei, procurei e ainda tive alguma esperança quando a Editorial Presença começou a reeditar os diários de Adrian Mole. No entanto, há duas feiras do livro consecutivas que passo pelo pavilhão da editora para ouvir sempre a mesma resposta: não, esse não está publicado nem sabem quando estará.

Bom, num destes dias deu-me uma iluminação divina lembrei-me de espreitar o OLX e lá estava ele: Adrian Mole e as Armas de Destruição Maciça, à venda por seis euros. Na esgotadíssima edição da  Difel e assim nem sequer diferiria graficamente dos outros volumes que já tinha. Mandei vir e eis que  uns vinte anos depois a colecção fica completa e eu poderei terminar uma leitura que começou quando eu era ainda mais nova do que o protagonista. Maravilhas dos livros! Ei-lo já cá em casa, prontinho para ocupar o lugar que sempre lhe pertenceu:


quarta-feira, 19 de julho de 2017

«Quási»

Um pouco mais de sol - eu era brasa, 
Um pouco mais de azul - eu era além. 
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... 
Se ao menos eu permanecesse àquem... 

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído 
Num baixo mar enganador de espuma; 
E o grande sonho despertado em bruma, 
O grande sonho - ó dôr! - quási vivido... 

Quási o amor, quási o triunfo e a chama, 
Quási o princípio e o fim - quási a expansão... 
Mas na minh'alma tudo se derrama... 
Entanto nada foi só ilusão! 

De tudo houve um começo... e tudo errou... 
- Ai a dôr de ser-quási, dor sem fim... - 
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim, 
Asa que se elançou mas não voou... 

Momentos d'alma que desbaratei... 
Templos aonde nunca pus um altar... 
Rios que perdi sem os levar ao mar... 
Ânsias que foram mas que não fixei... 

Se me vagueio, encontro só indícios... 
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas; 
E mãos de herói, sem fé, acobardadas, 
Puseram grades sôbre os precipícios... 

Num impeto difuso de quebranto, 
Tudo encetei e nada possuí... 
Hoje, de mim, só resta o desencanto 
Das coisas que beijei mas não vivi... 

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Um pouco mais de sol - e fôra brasa, 
Um pouco mais de azul - e fôra além. 
Para atingir, faltou-me um golpe de asa... 
Se ao menos eu permanecesse àquem... 

Mário de Sá-Carneiro, in Dispersão

terça-feira, 18 de julho de 2017

A Menina Quer Isto XCIV

A menina gosta de poucos perfumes, mas quando gosta, ama mesmo. Hoje passei na Perfumes & Companhia e, perante a minha incapacidade de gostar dos perfumes que me eram apresentados, a funcionária foi buscar a bomba atómica: um perfume chamado «Midnight Rain». Disse que era daqueles que primeiro se estranhavam, mas que depois adorávamos e que bastava uma só gotinha para durar o dia todo. Céptica que sou, achei que era banha da cobra. Inicialmente, não gostei logo do cheiro. Depois o odor melhorou na pele e é MARAVILHOSO. Já tomei banho e tudo e continuo a sentir o perfume. Considerando que a minha pele deixa logo de cheirar a perfume mal acabo de o pôr, isto acaba por ser milagroso. É tão fora de série que a marca, La Prairie, só fez embalagens de 50 ml. Que custam mais de cem euros... Mas pronto: posso um dia tropeçar num boletim premiado do Euromilhões. E também sonhar e querer não custam dinheiro, não é? Valha-nos isso.


segunda-feira, 17 de julho de 2017

Poupança

Lembram-se de vos ter contado que com uma rifa de cinquenta cêntimos comprada num evento organizado pela clínica veterinária a que costumam ir os meus patudos ganhei um ano de desparasitação (ou melhor: pipetas para a desparasitação durante um ano)? Bom, eu ainda fiquei a pensar que seria só para um dos peludos porque me parecia sorte a mais ser para os dois. Mas não: é mesmo um ano de desparasitação para os dois. Sorte a dobrar, portanto. Já tenho as caixas das pipetas cá em casa e, a juntar às duas pipetas que tinha para a desparasitação de Agosto, só volto a precisar de gastar dinheiro naquilo em... Outubro de 2018. Porreiro, não?

Não me lembro ao certo, mas creio que cada caixa custa mais de trinta euros. Recebi quatro. É fazer as contas como diria o outro, mas parece-me uma excelente poupança. 

O Duplo - o balanço (possível)

Estou aqui há algumas horas diante do ecrã a pensar sobre o que vos dizer e como falar do livro O Duplo, de Dostoiévski e não cheguei a conclusão nenhuma. Quando um livro é tão vertiginoso e ambíguo, o que dizer sobre ele? Nada de ideias definitivas, nada de conclusões interpretativas, nada. Há três ou quatro questões que levantei a mim própria, mas não passam de dúvidas. Dei uma voltinha pela internet para ler opiniões alheias. Não gostando do que vi em Português, passei às opiniões de leitores espanhóis e fiquei contente por ver que não fui só eu a ficar com a cabeça num nó ao ler este livro. Creio que a ideia do autor seria mesmo essa, a de levantar dúvidas tão embrulhadas que chegamos ao fim da leitura a perguntar «O que raio se passou aqui?».

Ao fecharmos o livro, a grande questão é: quem é este duplo? Mas mais ainda: este duplo existe mesmo? O que pode provar a sua existência? Podemos confiar no protagonista para acreditar na existência de um duplo? Sempre aprendi que devemos desconfiar de narradores bêbados ou com doenças mentais, obsessões e afins. Neste caso, o problema não está no narrador, mas no protagonista que, desde o início, assume que só usa uma máscara em determinadas circunstâncias. Quem nos garante que este duplo alegre, divertido, cativante - precisamente o oposto do «original» - não é, precisamente, a máscara que ele assume colocar apenas em alguns momentos? Na realidade, poucas ou nenhumas são as provas de que esse duplo exista fora da cabeça do senhor Goliadkin, funcionário público de baixo estatuto. Ao longo da leitura, e atentando nas falas e nos pensamentos do protagonista, pensei várias vezes que ele estava a deixar-se enlouquecer e que era um «desencaixado» da realidade, ou seja, tudo o que dizia e fazia diante de terceiros corria mal, saía ao contrario do que devia sair e era, por isso, desenquadrado daquilo que a sociedade esperaria. Se falava, enrolava-se nas palavras e acabava por sentir-se mais angustiado depois de tentar resolver certas situações do que se nem tivesse tentado esclarecer nada. Além disso, uma personagem que pára um dia supostamente alegre para ir chorar sobre o ombro do seu médico e que recebe como conselho fazer-se amigo da garrafa e soltar-se mais não pode estar bem. 

Todavia, estas pistas só colocam questões. Não creio que existam respostas definitivas para o que realmente acontece com este senhor Goliadkin. Um bocadinho como o Bentinho e a Capitu, de Machado de Assis, que deixarão para sempre a dúvida sobre a existência de traição ou não. Cada leitor entenderá os acontecimentos à sua maneira e viverá com as suas dúvidas e certezas no final.

Mas afinal, o que se passa neste livro de Dostoiévski? Um funcionário público de baixo estatuto prepara-se para um dia de luxos proporcionados por um considerável valor em dinheiro que tem na carteira. O objectivo final é o de comparecer na festa de aniversário da filha do seu chefe. A meio do dia, ou melhor, em boa verdade ainda antes de iniciar a verdadeira preparação para o evento social do final do dia, pára para conversar com o seu médico, mantendo um diálogo que aponta algumas pistas na direcção de uma fraca estabilidade mental deste senhor e de um desenquadramento relativamente ao que é apreciado pela sociedade. É, pois, nesse momento que é aconselhado pelo médico a fazer-se amigo da garrafa e a sair mais à noite, o que nos leva a crer num fechamento excessivo desta personagem, numa existência triste e diferente daquilo que seria a de outros (e a que seria tida como «saudável»). Depois, o senhor Goliadkin dirigir-se-á, enfim, a casa do seu chefe, da qual será escorraçado por não ter sido convidado para a festa da jovem Klara. Ainda assim, acabará por arranjar maneira de entrar contra a vontade do anfitrião e causando uma situação embaraçosa para a sociedade russa ali presente, mas sobretudo para aquele indivíduo que parece não encaixar plenamente em lugar nenhum. Depois de ser conduzido à rua, o protagonista cruzar-se-á, na sua deambulação, com uma figura que aparenta ser igual a si mesmo, o que o transtorna. Mais transtornado ficará quando vir, no dia seguinte, que este seu duplo ingressa na mesma repartição em que é funcionário, mas sem que os outros dêem verdadeiramente pelas suas semelhanças. Só quando ele chama a atenção para esse facto é que uma das personagens com quem conversa afirma que sim, que existem algumas parecenças. Mais estranho ainda é o pormenor de este duplo ter o mesmo nome que o senhor Goliadkin e ser proveniente da mesma aldeia. Contudo, será o que os separa aquilo que mexerá verdadeiramente com o protagonista: se em aparência são iguais, à mediocridade e à pouca alegria do senhor Goliadkin «original» contrapor-se-á um modo de ser totalmente diferente do duplo, alguém que sabe fazer-se querido pelos outros. No fundo, a sensação que fica é a de que este duplo é aquilo que o senhor Goliadkin não é. É como se existisse outro senhor Goliadkin para conter a parte positiva e feliz que no original não existe. Mas voltamos ao mesmo: afinal este duplo existe mesmo ou é efeito de uma enorme desilusão para com a vida, misturada com uma boa dose de loucura que vai crescendo, crescendo, crescendo até ao momento em que a única solução é afastar o senhor Goliadkin da sociedade? Não sei. Aliás, sei poucas coisas relativamente a esta obra literária que, de tão magistralmente escrita, deixa os seus leitores em dúvida há muitas décadas. Os leitores terão as suas teorias, mas poucas certezas. Na minha opinião, o duplo será simultaneamente alguém que nunca existe e alguém em quem o senhor Goliadkin projecta a sua própria imagem e o consequente desconforto e ciúme. É esse o processo que o conduz à insanidade: o de não ser aceite e de projectar noutro tudo o que devia ter e não tem. Mas pior: o de tentar lutar contra esse outro que poderá não ser mais do que uma ideia sua que as outras personagens não vêem como ele vê. Porém, uma outra interpretação poderia entrar mais no campo do fantástico e admitir que sim, que esse duplo que inferniza a vida do pobre e apagado senhor Goliadkin existe mesmo e atormenta o nosso herói até o fazer sair de cena.

Portanto, o meu balanço é a inexistência de um balanço. É Dostoiévski a recordar-nos por que motivo é um dos maiores da literatura universal. É um autor a saber quebrar-nos enquanto leitores chico-espertinhos que somos, a saber lindamente como trocar-nos as voltas e a deixar-nos desconcertados com a impossibilidade de respostas definitivas para as dúvidas que o texto nos coloca. Se puderem, leiam este livro e procurem vocês mesmos as respostas que eu não vos consigo dar. Assistam à queda de um homem que não cai de cima de nada porque ele já começa por baixo de tudo. Vejam como uma sociedade altamente hierarquizada trata aquele que se encontra perto da base da pirâmide; procurem perceber o que faz a um ser humano a sensação perene de que não está à altura, de que nunca é o que devia ser, embora também não seja dado a usar máscaras, nem tenha qualquer talento para isso. Lembrei-me muito de Kafka e de Pirandello ao ler este livro. Desafio-vos a lerem-no também e a tentarem perceber a razão pela qual recordei dois outros grandes autores ao ler a história triste do senhor Goliadkin. Não será tempo perdido.


«Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.»*

Hoje fui ao parque com a minha mãe e a minha sobrinha pequenita. Ela andou para lá a brincar e a minha mãe esteve por ali para a ajudar sempre que era preciso, ou porque o balouço não se mexe sozinho, ou porque subiu demasiado e descer já assusta, ou porque entrou uma pedrita na sandália e é o fim do mundo... O que for. Ao mesmo tempo andava por lá uma menina pequenita, filha de uma moça que conheço de vista desde sempre até porque é irmã mais nova de uma antiga colega de escola. A tal moça é alguns anos mais nova do que eu e a menina teria sensivelmente a idade da minha sobrinha. Ela pediu à mãe para que entrasse para dentro do parque com ela quando viu que a minha mãe entrava com a neta. A mãe entrou e sentou-se num banco que lá está. Até aí nada de grave.

O que leva a que esta quixotada exista é o facto de que a mãe da pequena não largou o telemóvel um instante enquanto lá esteve, mesmo quando a filha falava com ela e lhe pedia ajuda por algum motivo. Em determinado momento saiu mesmo do recinto do parque, foi sentar-se a falar ao telemóvel do lado de fora e a menina acabou por sentar-se amuada no chão. Triste e com razão, acho eu, porque para aquilo não faz falta ter por ali a mãe.

Os telemóveis tomaram conta da nossa vida e cada vez menos sabemos parar, erguer o olhar e ver o que está à nossa frente. Eu não tenho filhos, mas parece-me que estes serão sempre muito mais importantes do que a actualização do Facebook ou do Instagram, mais importantes do que o que possa surgir no ecrã do telemóvel. Enquanto a minha sobrinha esteve sempre acompanhada, andou no que quis e teve toda a ajuda de que precisou, a outra menina recebeu respostas enquanto os olhos miravam um smartphone. A mãe estava, mas não estava. E é isto.

Tive em tempos um aluno que me chorou no ombro porque o pai ia aos seus jogos de andebol ao fim-de-semana e levava o portátil com ele. Ia, mas não via o jogo, não via o filho, não via nada além de um ecrã. E porque fora isso também parecia não ligar a nada do que o filho fazia, as lágrimas foram imensas. Era já um adolescente quando isto aconteceu, portanto os anos de desilusões sobre desilusões eram já imensos. Parece-me que como ele haverá por aí muitos meninos e meninas que poderão queixar-se do mesmo. E existirão cada vez mais à medida que o ser humano se deixa engolir mais e mais pelas tecnologias disponíveis. 

Um dia aquela menina crescerá e já não irá ao parque. Talvez a mãe lembre com saudades esses tempos de que não terá muito mais para recordar além da voz da filha de dos muitos pixels do telemóvel.

* Frases de José Saramago e epígrafe do conhecido Ensaio Sobre a Cegueira. Cada vez funcionam mais como conselho a seguir.

sábado, 15 de julho de 2017

Chora, Camões, chora... XI

Esta quixotada... É dedicada... A todos aqueles... Que consideram... Que o abuso... Das reticências... Quando escrevem... Acrescenta... Profundidade...  E sentido... Ao... Que... Dizem...

Mas... Não... É apenas... Muito estúpido... E... Sinal de... Que não... Sabem... Escrever... E... De... Que padecem... De uma... Imaturidade... Do tamanho... Do mundo... A profundidade... Vem... Do conteúdo... E do uso... De uma... Pontuação... Correcta... Não... Será com certeza... Do uso... Ridiculamente... Exagerado... Das reticências... E... Se eu pudesse... Enrolava o Expresso... De hoje... Com os... Cadernos todos... Para ficar... Um rolo... Grossinho... E... Dava... Com ele... No lombo... De quem... Escreve... Assim... Enquanto... Gritava... "Não faz isso"... "Não faz isso"...

(Acho... Que gastei... O... Plafond de... Reticências... Do século... Todo...)

sexta-feira, 14 de julho de 2017

A conta

Se eu um dia me atrevo a apresentar ao Senhor Gato a conta relativa a tudo o que ele já partiu/destruiu desde que era deste tamanho,


creio que passa ele a assumir a lavagem da louça para o resto da vida!

Adenda: Esqueçam, não vou apresentar conta nenhuma. Ele lavaria a louça com a língua. E o hálito do bicho é de morte...

Zombie

Acordei às 4:50 da madrugada. Não consegui dormir mais. Vi o sol nascer e tudo. Estou em modo zombie. Lady Gatica dorme ferrada ao meu lado, faz um calor desgraçado colada a mim com aquele pêlo todo, mas não me pega o sono. 

Palavra que cada vez odeio mais as noites. E pensar que há uns anos, antes de me estourarem com os nervos e com as noites, dormia como uma pedra a noite inteira. De facto, na vida, "todo cambia".