sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Peculiaridades de um leitor X


Um leitor que tenha já uma biblioteca considerável acabará um dia por viver o mesmo problema que eu experimento desde ontem: o de um livro desaparecido. E sabe que é um pesadelo!

Tenho por aqui uma lista de livros em que há precisamente um livro no centro da acção. É difícil ser-se mais rato de biblioteca do que isto, mas je m’accuse: eu sou um grande, um enorme, um descomunal «fuçador«» de livros. Nada a fazer. Então ontem, um bocadinho farta de ler no Kindle, resolvi ir aos livros do moço e retirar de lá O Livro das Ilusões, do Paul Auster, um dos que consta da tal lista. Contudo, corri a prateleira de ponta a ponta mais de dez vezes e do livro nem sinal. Depois fui à antiga lista de livros do moço (ando a juntar os dele à minha para a coisa ser mais fácil) e ele constava da mesma, ou seja, o livro já existiu cá em casa e por cá deveria estar. Considerando que todos os livros desse autor estão juntos, que não havia motivo para separá-lo dos outros e que não foi emprestado, a questão que se coloca é: onde anda o danado do livro???

Estou farta de tentar puxar pela cabeça para reconstituir o rasto ao bicho, mas não há rasto possível: o livro devia estar na prateleira a menos que andasse a ser lido, coisa que não está a acontecer. E eu, como qualquer ratinho de biblioteca, já desejei que os livros tivessem microchip, que gritassem, que respondessem pelo nome, que se atirassem aos nossos pés... Enfim, já desejei uma série de situações muito «potterianas» e, portanto, impossíveis. Mas lá está: isto só acontece aos leitores. A angústia do livro sumido só apoquenta essa minoria da população que venera o deus Gutemberg e o cheiro a papel. Não conheço muita gente que queimasse os seus neurónios por desconhecer o paradeiro de um livro que tem de estar cá em casa (o moço gosta de Paul Auster e tem os livros todos, por isso é que a falta se tornou ainda mais evidente). Conheço até muita gente que se perguntaria como raio alguém perde tempo à procura de um livro em particular se tem tantos. Simples: para um leitor amante dos seus livros, eles não são todos iguais nem cada um é apenas mais um entre tantos. Um livro é um livro e há alguns que podem fazer-nos mais falta do que outros, mas todos têm de estar por perto, de preferência onde sabemos que os deixámos. Um pastor não gosta de perder uma ovelha e um leitor não gosta de livros tresmalhados. Principalmente quando são os que compõem as suas prateleiras. Por isso, esta é talvez uma das nossas maiores peculiaridades. Uns sofrerão porque não sabem de uns brincos ou de uma mala; nós sofremos por esses desaparecimentos e também pelo dos livros que ganham perninhas e vão fazer vida para longe da nossa vista.

Agora ando aqui em modo «Sherlock Books» (é primo afastado do «Holmes»). Vou olhando para as estantes todas (embora saiba que não pode estar em mais nenhuma porque sou eu que as organizo e  ainda não estou louca para separar um volume de todos os outros do mesmo autor), cirando pela casa a ver se o moço lhe pegou e o deixou por aí, esforço a memória visual para tentar recordar onde o vi pela última vez, procuro perceber por que razão nem o seu espaço vazio está na estante (o que explica que até ontem não tivesse dado pela sua falta), enfim, investigo, quase de lupa em punho. Para o que um leitor está guardado!

Notita: A imagem saiu daqui

7 comentários:

  1. Haha, o número de vezes que isto me acontece... livros empilhados, livros em frente de outros, pobres livros :( sofro sem dúvida do síndrome do livro tresmalhado.

    (chegaste a encontrar-me no goodreads?)

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    1. É raro acontecer-me isto. Por muitas pilhas que tenha (e agora, com a estante nova, nem tenho nenhuma), sei onde está tudo. E se não aparece à primeira, aparece à segunda. Este está mesmo desaparecido.

      Desculpa, ainda não procurei. Só voltei a ligar o computador hoje (tenho publicado via iPad ou telemóvel) e esqueci-me de tentar. Nos outros ecrãs fica tudo muito pequenino e não dá jeito. A ver se a amanhã ou no Domingo consigo encontrar-te. :)

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  2. Sim, os meus também aparecem eventualmente :) acho que o meu problema é ter uma espécie de "imagem mental" de onde tenho determinado livro - nem sempre está correcta, é claro, mas e convencer-me disso? Ui.

    No problem :) até te gabo a coragem/capacidade de publicar no telemóvel, eu se tenho de enviar um mail pelo telemóvel até fico com suores frios!

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    1. O problema é que neste caso eu sei bem o lugar do livro, mas ele não está lá. É um mistério. :(

      Publicar no telefone ou iPad não dá muito jeito, mas se não fossem eles publicaria menos porque estão ali à mão e o mesmo não acontece com o computador. Sacrifícios que é preciso fazer. :P

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  3. Ando com um problema em mãos igual: não sei do meu 'Caim' de Saramago. Gostava imenso de saber onde raio se meteu o livro. Não que o queira ler, mas porque faz falta junto dos seus irmãos --'
    Em último caso já avisei o meu namorado que vou comprar outro.

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    1. Pois, o mesmo que com o Auster: estar ali a colecção completa e faltar só um enerva.

      A propósito, o Caim é um livro cheio de ironia e de sarcasmo. Gostei muito. Saramago é um génio e pronto. Acho que sim: se não aparecer, compra outro e devora-o. ;)

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  4. Por acaso, acho que nenhum livro me desapareceu... Os poucos que tenho emprestados, sei quem os tem. Mas estou solidária com a tua dor: se fosse comigo, também estava a dar em maluca para saber onde o livro se tinha metido.
    E sim, também tenho uma lista com os meus livros e estou a fazer uma para o Moço também. Leitores (mais ou menos) organizados são outra coisa =P
    ****

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